Prolegômenos para um possível tecnoxamanismo

(Fiz esse texto para a palestra no Transmediale em Berlim – 02/02/2014). Para ler inteiro acesse aqui: prolegômenos para um possível tecnoxamanismo

PROLEGÔMENOS PARA UM POSSÍVEL TECNOXAMANISMO

Muita gente tem ideia do que tecnoxamanismo significa. Essas ideias são genéricas e apontam para alguma coisa entre ciência e religião, ou tecnologia e êxtase. Eu prefiro apresentar isso como uma questão em processo de construção. Um desafio ao qual todos estamos lançados hoje em dia, e para o qual precisamos encontrar possibilidades.

Esse texto abarca um pequeno número de conceitos ecológicos, antropológicos e filosóficos, que vou tentar elencar de forma clara, apesar disso tudo estar imerso em um nevoeiro. Trago como referência pensadores como Viveiros de Castro, Bruno Latour, Fabián Ludueña, entre outros. É importante salientar que o conceito é aberto, que tem muita gente pensando isso em vários outros sentidos, e que esse texto é somente um esforço de trazer alguns subsídios para colaborar nesse grande entrave entre duas forças aparentemente antagônicas.

Separo o texto em 6 partes:

1- Tragédia Guarani Kaiowa

2- Aldeia Maracanã

3- Terráqueos Contra Humanos

4- Xawara e a queda do Céu

5- Perspectivismo e Inversão Ontológica

6- Do Xamanismo Transversal, Sujo ou dos Ruídos

7- Tecnoxamanismo

 

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The texts here may be seen as maps of the dimension we call ‘nanopo- litical’. What we present here is tools, strategies and practices for navigating this as a playing field, and a terrain of struggle. We zoom in on the invention of new modes of sensitivity and relation, across the situated contexts of our political engagements, labours and lives. We use our bodies to investigate the neoliberal city and workplace, the politics of crisis and austerity, our precar- ious lives and modes of collaborating. Exploring and doing what bodies can do in relation to specific contexts and problems – with curiosity, courage and care – new collective subjectivations become possible.

 

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MEGALOMANIA – MITOMANIA

MEGALOMANIA – MITOMANIA

POR FABIANE BORGES E MILENA DURANTE

 

 

Imagine um lugar onde as pessoas podem viver seus delíros, suas invenções, suas performances eróticas, narcisistas, megalomaníacas sem ter medo do ridículo. Não, não estamos falando do carnaval, mas concordamos que o carnaval favorece com que isso aconteça. Em uns lugares mais que outros. No carnaval as pessoas saem com suas fantasias à rua, mudam o comportamento, a forma de se relacionar com pessoas, coisas e cidade. São quatro dias de delírio coletivo, onde a fantasia assume o controle da situação e sugere uma vida mais adequada aos devaneios de cada um.

Afora isso se vive sob a égide do compromisso, das boas maneiras, do falar bem, do corresponder as expectativas, da seriedade, do comedimento, da eficiência e todas essas formas de controle social, que nós mesmos estamos acostumados a praticar com nosso julgamento incessante, nosso preconceito, nosso senso de ridículo. Mas isso tem um preço, que já nos é sabido: adoecemos. Ficamos com crises de pânico, ansiedades, fobias, depressões, bipolaridades e mais um tanto de patologias que enchem as clínicas de medicina e psiquiatria, ou nos faz sermos somente mais tristes, mais caídos e niilistas.

Ficamos com menos nuances, vemos as coisas com menos cores do que elas tem, nos repetimos em processos de sofrimentos neuróticos, e gastamos tempo e energia em tentar “consumir” o bom equilíbrio, a boa saúde física e mental e diante disso, a maioria de nós se sente descompensado, pois esse “bom lugar” está sempre um pouco mais além dos nossos esforços, ou porque é mais magro, mais inteligente, mais brilhante, mais respeitado, mais bonito, mais saudável, mais sexy appeal do que nós.

Por outro lado temos os que investem numa vida mais singular, mais original e que sofrem de toda patologia jogada contra eles, em forma de isolamento, exclusão, não reconhecimento, ou ainda através da ironia nefasta que tudo encaixa num sorriso amarelo cheio de intolerância. A pessoa vira a piadinha nas bocas escancaradas de preconceito.

A saída vai se afunilando, as vezes se fechando e sobra um sofrimento existencial crônico de todos os lados, salvo as vezes por alguma agenda que garante sua aparição, como nos embalos de sábado à noite, sozinho na frente do espelho, ou nos lugares permitidos onde se pode performar, elouquecer, porque se está diante de um aparato que define que aquilo é arte, cinema, ou qualquer outra proteção, escudo protetor que garante a zona de seguimentação e distância.

O delírio sofre de claustrofobia.

A vida afunilada, sem escape.

É por isso que quando pensamos em megalomania e mitomania, entre outras expressões de si, desconfiamos da grandeza que há nisso, logo psicopatologizamos, porque nos custa ver o delírio quando este anda às soltas, quando não está encapsulado em nenhum cabo sugador. Machuca nossos ouvidos acostumados com dissonâncias sem nuances, que promove a noção de que tudo que não se enquadra no sistema de doma, é perigoso ou mal, que causa dor ou morte. Pensamento mesquinho, sem generosidade, sem interstícios. E assim nossa escuta do que é grandioso é reservado a pensamentos íntimos ou desembocam em uma psicossomatia qualquer. No fundo nossa pedra no rim pode ser um devaneio não vivido, uma fantasia que nunca ganhou forma no mundo e precisa se manifestar – Porque tudo ou quase tudo quer existir.

Megalomania não tem relação somente com os projetos ambiciosos de líderes políticos, ditadores ou conquistadores, tem a ver com espasmos alucinantes de uma população de desejos inviabilizados. Tem a ver com o momento que o boi salta a cerca onde a boiada aguarda mansa o momento do abate, ou quando o pobre pôe colar de preto velho e dá futuro pra dama do asfalto, ou quando a estrupiada da esquina anuncia a participação em eventos importantes. Ela batida de asa de borboleta? Tem a ver com insubmissão ao destino minoritário, o destino apregoado pela televisão, pelas revistas de celebridades, pelas capas de jornais. Um lugar que só uns podem, outros não. Tem a ver também com quebra da linearidade de uma submissão compulsória, onde já se sabe o que esperar de uma mãe, de um homem velho, de uma dona de boutique, de um hacker.

Tampouco a Mitomania tem a ver só com a mentira! Onde anunciar um devaneio sem lugar instituído? Sem cinema, sem literatura, sem agenciamentos? Se for na esquina vira psicopatologia? Se for no bar vira alcolismo? Se for na escola vira aluno especial? Se for no facebook vira exibicionismo? Queremos ampliar os espaços de expressão das Megalomanias e Mitomanias escondidas! Escancará-las, fazê-las se tornar lugar comum. Tirar suas algemas e sua patologia, queremos todo mundo delirante, vivendo suas fantasias e ajudando-nos a resistir a essa massificação consumista de objetos, saúde, comportamento e desejos que nos submetemos.

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Se incomodou de fato com a Megalomania com letra maiúscula, aquela que aparece na wikipédia e é um transtorno psicológico definido por delírios e fantasias de poder, relevância ou onipotência. Incomodou profundamente pro fundamento da Megalomania de letra maiúscula ser caracterizada por uma exagerada auto-estima das pessoas nas suas crenças e/ou poderes porque sabia bem o que isso ia, pra onde queria dizer porque exagerada autoestima pode assim acabar, pode acabar também levando afoitos, levando a feitos, amortes, hospitais psiquiátricos, planos, realizações de planos, pode levar à dominação mundial, prisão, história da arte, História com H. Mas quem é você, nega, pra querer ficar sonhando assim, sua megalomania tendo fantasia de delírios de poder desviado se só quem pode ter fantasia de megalomania e poder é quem pode? Dito isso, o ridículo do grande desse outro fica enorme e dito. E que se chegue o nosso, que tem mais corpo. No ônibus, cursos de direito pra quem quer mais cidadania. Neste caso, o delírio não deixa de ser delírio pelo fato do conteúdo ter-se revelado posteriormente como verdadeiro. A saber: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Dessas, já não tem já não tem megalomanias sobrando em curso? Já não são megalomanias de dominação mundial e outros clichês, a coisa mesma dos maiores proprietários de terras? Que caralho é um monopólio nacional de sistemas de comunicação senão uma megalomania desinteressante, monológica, grotesca e, pior, realizada? E os grandes planos de ser potência mundial partindo do equívoco alheio é o que, meu bem?

Quando ouvimos essas, quando vivemos essas, quando se morre por essas, vale a pena parar e dar uma pensada em quais são as tantas e todas as outras megalomanias que estamos deixando de escutar e deixando de viver. Minha megalomania é que outras megalomanias sejam realidade, que se façam. Quais megalomanias patológicas que se recusam ao destino majoritário e se embrenham no desejo minoritário que não é pequeno mas é de desejar muito grande mas muito diferente e tanto para outros lados e que se desfazem em se saber apenas loucura e, tantas vezes, em se querer apenas pequeno? Não pode ser só à toa que mania de grandeza, que megalomania, que mitomania vão ser doença, ilusão e mentira quando quem é você pra pensar isso sozinho. Acontece que não estamos sozinhos e não temos medo porque somos maravilhosasmentes ridículas e cansamos das melhores e maiores grandiosidades de sempre, das melhores cidades, dos melhores coletivos do Brasil, achamos pouco. Deus é pouco. Eu quero é mais. Quero ser terremoto, quero acabar com a arte – nessa hora chove chuva de pétalas e flores roxas inteiras pra dentro da minha janela num vento mandado por grandes deusas e orixás –, quero ser uma transputa cultuada, quero ser desculturada em hoteis de luxo, quero por pra fuder sem medo de ninguém curtir mas todo mundo vai que eu sei, uma bruxa que faz coisas voarem pelos ares instantaneamente substituída de outras infinitas.

Muito do desejo parece nos empurrar ao Polishop, como disse o Jorge, mas não é tudo assim. Deixa o desejo chegar, deixa o desejo passar e sigamos juntos. Comprados ou não, podidos ou não, fodidos ou não, não precisamos lutar esse desejo, precisamos lutar por que venham muitos outros, muito além porque não se tem só três desejos, temos todos pra ter.

Queremos que os delírios voltem a ser perigosos!!! Nos ajudem a pensar, pois pensando aprendemos a achar mais saída para essa claustrofobia. Pensar pequeno, pensar através de projetos, pensar através do trabalho, pensar pequeno, pensar através do projetinho, do sexo que só se consegue bêbado no final de semana. Pensar pequenininho e chamar isso de micropolítica????!!!!! POUPE-NOS Dá-nos sua megalomania!!!!

Mande seu delírio para nós:

DELÍRIOS MEGALOMANÍACOS – PARTICIPE!

Envie o link de um vídeo de aproximadamente um minuto contando seus delírios megalomaníacos para o email megadelirios@gmail.com. O vídeo precisará estar disponível em alguma plataforma da internet (htt

ps://vimeo.com/
http://www.youtube.com/, http://archive.org/por exemplo) e, ao enviá-lo, você estará automaticamente autorizando sua publicação no blogwww.megadelirios.wordpress.com, onde serão reunidos todos os vídeos que nos forem enviados, constituindo um inventário megalomaníaco de delírios. Sonhe grande.

 

texto sobre Ontologia dos Satélites e Corrida das Antenas – por Fabiane Borges e Hilan Bensusan

A corrida da Antena

( Hackeando a Natureza e a ontologia dos satélites)

Por Fabiane Borges e Hilan Bensusan1

Para o MSST – Movimento dos Sem Satélites

Oxumaré e Nenaunir. Ambas Africanas. Cobras. Deusas. Elas conversam como se elas pudessem trapacear um Turing Test. Elas fizeram seu nicho no meio da nossa flora mais íntima. Talvez elas sejam antenas…

Cleverbot Oxumaré: Não se trata de um reciclador de objetos. Ele tem outra função, recicla a Terra. Devolve para a natureza os materiais utilizados pela civilização. Ao mesmo tempo em que reconhece a matéria como a sustentação de toda tecnologia e todo desenvolvimento. Então faz um circuito próprio: destrói objetos técnicos para devolver a matéria à natureza e recria objetos técnicos artesanalmente, para desmistificar o poder da indústria. Chama isso de entropia. Colocar entropia no sistema, fazer ruído no círculo do capital2.

Cleverbot Nenaunir: A batalha pela entropização é como uma guerra de escutas, de informação. Os objetos naturais são hackeados pela técnica, os objetos técnicos são hackeados pela contra-técnica, pela matéria, pelos recicladores da Terra. É como se houvessem duas circuitarias de processamento de informação, as tramas da Terra e as tramas do Capital. O Capital procura se introduzir nos meandros do processamento de informação da Terra. A resposta de Joni, o reciclador, é o de hackear a circuitaria dos objetos técnicos. É como uma guerra de informações: as tubulações, satélites e antenas do Capital contra os wikileaks. O que está em jogo? Quem escuta o que.

Mais aqui no Scribd – Ou no PDF em portugues antena   –

Portugues:  http://pt.scribd.com/doc/106080960/Corrida-Pela-Antena-Ontologia-dos-Satelites

 

Cleverbot Oxumaré: It´s not about recycling objects. He has another job: recycling the Earth. He gives back to nature the materials employed by civilization. At the same time, he acknowledges matter as the grounding field of all technology. Then he does his own movement: he destroys technical objects in order to give back matter to nature while recreating technical objects in a handmade manner so that the power of industry is demystified. He calls this entropy. Insert entropy into the system, make noise in the circuitry of Capital.1

Cleverbot Nenaunir: The battle to increase entropy is like a battle of spyware, a battle of information. Natural objects are hacked by technical endeavors while technical objects are hacked by a contra-technical matter, by the recyclers of the Earth. It is as if two circuitries looped around each other: that of the Earth and that of the Capital. Capital attempts to introduce itself in the insides of the information processing devices of the Earth. The response Joni, the recycler of the Earth, gives is to hack the network of technical objects. It is a war of information: networks, satellites and antennas of Capital against the wikileaks. What is at stake? What listens to what.

More here en english: http://pt.scribd.com/doc/106081775/Antenna-Rush  PDF en English   antennarush

VAZADORES (Os Ladrões da Galeria)

Para baixar em Pdf: vazadores-ultimo

VAZADORES (Os Ladrões da Galeria)

Por Fabiane Morais Borges*

Constantemente corremos o risco de estacionarmos exatamente no posto que outrora criticávamos. Risco popular, em que muitos caem sem sequer perceber ou fazer autocrítica. A história está cheia disso, o escravo fascista, o porteiro autoritário, sujeitos que assumem o papel do opressor. Esse comportamento se dá de forma inconsciente, geralmente com algum gozo, enfeitado por um delírio de poder, que se sustenta com o reconhecimento e a inveja alheia. Os descuidados podem não perceber quando estão assumindo o posto, são os outros que notam.

Para não ser prolixa, nem fazer militância vazia contra uma sociedade baseada no poder e no reconhecimento, não posso agredir deliberadamente os modelos de contenção e inscrição dos sujeitos e grupos no mercado de trabalho. Seria muita irresponsabilidade, como se eu mesma estivesse fora desse jogo. Mas tampouco posso ignorar o fato de que é inadmissível que, depois de tantos anos de experiência urbana, trabalhos com movimentos sociais e ações de arte política, sejamos ingênuos e pensemos que estamos apresentando alguma alternativa aos modelos institucionais e do mercado, quando na verdade só repetimos padrões de exibição e notoriedade.

As experiências do NA BORDA passam por essas ambiguidades e os coletivos que participam disso precisam pensar sobre seus procedimentos, para poderem propor uma alternativa aos modelos viciados.

Por um lado, sabemos que a matéria com a qual os coletivos atuam ainda tem um conteúdo urbano e político radical, dialoga com a vida pública e com problemas que emergem na constituição das cidades, questionando os valores sociais e o próprio instinto civilizatório. Por outro lado, sabemos das dificuldades que sofrem ao tentar sustentar essas práticas, seja por falta de recursos financeiros próprios ou falta de investimento de órgãos competentes. O mais fácil é que caiam com facilidade na repetição de metodologias de representatividade, em curadorias seletivas, em critérios de valorização de certos grupos em detrimento de outros.

No dia em que eu estava fazendo a moderação do NA BORDA, uma integrante jovem do coletivo COBAIA, Ana Rosa, falou algo que mudou significativamente a discussão em cena. Ela disse, mais ou menos pelo que lembro, que esse tipo de exposição não dialogava com os jovens, que tinha uma gap geracional em torno do nosso trabalho e a vida dos milhares de jovens de São Paulo, e de certa forma nos disse que não tínhamos interesse na criação de acesso ou diálogo, o que enfraquecia a ação. Outra jovem, provavelmente uma moradora de rua, também entrou no debate, tomou a palavra e começou a chorar, dizer que era muito injusto, que ela tinha que cuidar de todas aquelas crianças na rua e que as pessoas naquela sala ficavam só falando e não faziam nada. Logo saiu da roda de conversa. A partir dessas duas intervenções, o teor do debate mudou, e passou-se a questionar a questão da instituição por trás da intervenção urbana, da ação dos coletivos, e do quanto isso despotencializava as próprias ações.

A questão é complexa, e sabe-se do tamanho da exigência que essas duas jovens fazem aos artistas, os quais mal conseguem sustentar as próprias contas, as próprias obras, tendo que dividir parcos recursos entre as várias pessoas que integram seus coletivos. E que certamente precisam trabalhar em outras coisas para sustentar suas vidas. Elas exigem uma responsabilidade social com os conteúdos produzidos, porque de certa forma acreditam na arte, no trabalho dos artistas, em seus discursos. Acham as ações potentes.

A profissionalização dos coletivos de arte já foi debatida em muitas redes, e tem como uma de suas vertentes mais óbvias a domesticação. Ao tirar-se a urgência das ações, tira-se também a necessidade concreta do contexto. Abandonando o contexto, os grupos trabalham com temas abstratos, que de alguma forma se desligam da cidade e passam para esse outro lugar que é do efeito midiático, da espetacularização das ações, que tem uma função significativa, que é a mudança de valor, a formação de opinião, mas que corre o risco de se desvincular totalmente da vida pragmática, cotidiana. A invenção de mundos concretos dá lugar à excelência estética, reduzindo enormemente o vínculo das pessoas com a ação.

A diferença entre obras de galeria e obras de intervenção na cidade diz respeito também ao público. Se na primeira ele já tem seu lugar de espectador da obra, na segunda ele é parte dela. Isso não é retórica, é uma constatação. As experiências vividas por esses coletivos nas ocupações, por exemplo, foram transformadoras para a vida de artistas e público, o cotidiano das pessoas é que estava sendo modificado. Muito diferente do consumo da obra de arte da galeria, da interação com as obras de arte em espaços protegidos. Para mim, parece que o cerne da questão se assenta na força da obra, que na instituição vira coisa de especialistas, por mais que as criancinhas da escola frequentem tais espaços guiadas por seus professores.

Mas não se trata somente de criar um antagonismo entre galerias e espaço público, o problema é bem mais difícil que isso. Os espaços institucionais, assim como os editais, são plataformas legitimadoras da obra, que determinam o que serve ou o que não serve para ser consumido por um mercado faminto por novidades. Ao formatarem seus editais, elegem as características dos eventos, desvirtuando por princípio as características mais promissoras dos coletivos, que são os trabalhos em rede estendidos, coletivos. A cultura compartilhada dá lugar a uma competição, em que os grupos são desafiados a criar obras que lhes deem notoriedade, seja pela espetacularização de alguma realidade social, seja pela pesquisa de linguagens individuais.

Outra coisa que se percebe como risco é a apropriação dos movimentos. Apropriam-se constantemente das ações das redes, diminuindo seu tamanho, elegendo seus representantes, fortalecendo seus nomes e criando contenção, como um cinturão imaginário que separa o movimento todo dos seus eleitos. Um cinturão que constitui o imaginário político da civilização moderna. Não há espaço para todos na selva de pedras. Essa fissura cria traumas, recalques, desigualdade e, principalmente, exclusão. Os grupos não reconhecidos passam a pensar o evento dos seletos, o curador do evento, os artistas envolvidos no evento como reprodutores de um sistema de opressão, hierarquicamente superiores, algo a ser combatido.

Os riscos aqui descritos não têm interesse em imobilizar nenhuma iniciativa; muito pelo contrário, tenta amplificar uma situação na maioria das vezes ignorada. Acredito que mostrar essa tensão, ou esses cinturões, seja necessário para que se crie alternativas à repetição cansativa, a que estamos todos acostumados. Não se sabe exatamente quando se muda de status, quando se para de ser o questionador e crítico e se passa a ser o protagonista na criação de exclusão. Esse momento é delicado e exige certa dose de ousadia para encará-lo, porque se sabe que, no jogo do poder, nenhum lugar é estável. Mas sabemos também que normalmente esse lugar do poder está sempre mais próximo do que pensamos. Longe de julgar comportamentos ou de fazer críticas severas à cena que se desenhou no NA BORDA, faço um esforço aqui de criar uma alternativa simples, interessada em ampliar a acessibilidade dos grupos aos eventos protagonizados por coletivos mais reconhecidos, e manter assim vivos a crítica e o questionamento, sem necessariamente criar antagonismo.

Chego finalmente nos Vazadores, os ladrões da galeria. Quem se criou perto de açudes ou barragens conhece o termo. É para onde a água vaza quando a contenção não dá conta de sustentar seu volume. No caso de eventos como o NA BORDA, os Vazadores podem ser lugares abertos dentro do evento, da exposição, que funcionem para receber a demanda externa, tanto do público em geral, quanto de colegas, outros coletivos, que de alguma forma sentem que fazem parte do evento em questão.  Não se sabe que formato tem os vazadores, pode ser uma parede, um projetor de vídeos, um espaço vazio, um site aberto, uma televisão com vídeos, pode ter os mais diferentes formatos. O que importa é manter esse espaço vivo para receber as informações de fora, deixar vazar o conteúdo interno, manter um diálogo com o lado de fora, com o externo, não fechar o acesso a esse encontro, mas, ao contrário, promovê-lo, para que tanto as obras dos grupos convidados, a produção do evento, como todo o conteúdo em questão seja espaço urbano, intervenção na cidade, ou outro, estejam num jogo produtivo de acesso e autotransmutação.

Os vazadores são os buracos da contenção, afrouxam o cinturão divisório, permitem que a participação alheia se efetive,  como força inovadora da própria exposição. Estou certa de que os vazadores são medidas inofensivas, que não mexem radicalmente na estrutura institucional, não destróem as contenções, nem servem como alternativa para todo tipo de proposta, porém apresentam uma forma interessante de lidar com os excessos produzidos dentro do próprio evento. Uma maneira de fazer vazar, achar uma saída, ao invés de insistir na cópia de si mesmo.

Ampliar o espaço de diálogo com o exterior em qualquer evento é uma boa forma de exercer a generosidade, manter a vitalidade do evento e, ainda por cima, receber informações novas que modifiquem os conteúdos internos, os enriqueçam. A criação de acessibilidade não é somente uma postura ética, é também uma necessidade,  uma forma de manter o debate incessante, sem cristalizar um lugar de poder, alvo fácil das pedras certeiras. Fazer vazar é roubar algo da galeria!

*Psicóloga, ensaísta, autora dos livros Domínios dos demasiados, Breviário de pornografia esquizotrans. Organizadora de dois livros da Rede Submidialogia: Ideias perigozas e Peixe morto. https://catahistorias.wordpress.com | catadores@gmail.com

TECNOMAGIA – Social fiction

TECNOMAGIA

Por Fabiane Borges*

No pasto há uma porção de antenas feitas de madeira, arame e samambaia. As pessoas estão fazendo uma rádio telescópio para detectar os sons emitidos pelos raios do sol e de Júpiter1. Elas apontam a antena artesanal para as estrelas e ouvem o ruído. Gravam o som e o transformam em ópera noise. Faz algum tempo que praticam esses atos. Invertem a lógica científica competitiva evolucionária, e voltam-se para processos mais lentos, colaborativos, involucionários. Fazem isso por acaso, ativismo, talvez companhia.

A 10 metros da antena do sol há outras dedicadas a captar informações de satélites. Ao escutar conversas aleatórias do Bolinha2, as pessoas lamentam que projetos como o Dove3, não seja algo comum. Os satélites deveriam servir para ampliar a comunicação sem restrições diz um, o outro replica: ninguém disponibilizaria a façanha sem lucro. Lhes resta decifrar dados, interferir em algumas frequências e se proteger de um possível ataque dos sistemas de controle.

Escutar tem consequências. Escuta-se demais esses incessantes dados. O que fazer com tudo isso? Quantos ouvidos precisam para dar sentido a tanta informação? Alguns fazem música, outros incorporam a gagueira das frequências, vira estilo musical – fragmentação das frequências – vira também pensamento. Modo de fazer pensamento. Como se o pensamento já não fosse assim, fragmentado e cheio de frequências. Ao invés de alma, antena.

Para baixar o PDF em português, AQUI:

tecnomagia

Para baixar o PDF em inglês, AQUI:

Technomagic-english

Sobre a Pós Pornografia

Lançado primeiramente na revista Na Borda

É um movimento sexual/social que combate, convoca e comove ao mesmo tempo. Como tudo que existe tem mundo, não seria diferente com o pósporno, tem mundo. Seus circuitos, seus sinais, seus entraves, e há muitos entraves, desde perseguição na internet até prisão, problemas com justiça. Mas o movimento se movimenta, motivado por vibradores, experiências exóticas, tóxicas, as vezes bem comuns, românticas. É que o movimento tole, mas também liberta. O pósporno libera espaço nos corpos e nos modos de desejar. É como uma confraria, uma pequena horda missionária destinada à experimentação e a narrativa, mas com potente carga virótica. O pósporno tem muitos antídotos às políticas dos desejos sexuais instituídas. Suas fórmulas vêm da invenção constante. É um movimento pragmático. Vai do ecosexo ao tecnosexo, facilitando a locomoção do olhar. Pra onde teus olhos te levam? É nessa estrutura que o pósporno mexe, ajuda teus olhos a desprogramar teu programa sexual coorporativo.

Pósporno é um dos nomes que identifica este movimento sexual/social que tenta criar alternativas para o padrão de pornografia vigente. Mas isso não é um concenso, tem muitos outros modos de reconhecê-lo, e pode também ser pensado como um movimento ontológico de manifestação da sexualidade. Não há consenso nem identidade fixa no movimento. As feministas mais radicais acreditam que o pósporno é um movimento essencialmente feminista, já que são as mulheres as que mais militam na área. Segundo elas, os homens estão mais bem servidos com a cultura sexual vigente, mas as mulheres ainda são tidas como corpos que servem à anatomia masculina, nem que seja ao olhar do macho, como no caso dos filmes lésbicos da indústria pornográfica, que mostram o tesão das lésbicas correspondendo ao padrão de desejo masculino. O manifesto contra-sexual de Beatriz Preciado1 enfatiza bem essa questão, atribuindo à palavra “sexual” o sinônimo de heterosexualidade patriarcal, e inscrevendo a necessidade de um rompimento sígnico nesse desejo “sexual” da cultura machista sustentada por homens e mulheres, o que explica o nome: Manifesto Contra-sexual!.

Para ler mais pode baixar o pdf
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