Sobre a Exposição da “Santa Pelada”

Sobre a Santa Pelada

Por Fabiane M. Borges

Para baixar em pdf: Sobre a Santa Pelada

santa pelada

O que eu estou fazendo sozinha com um bando de homens do time de futebol? Ao ser perguntada sobre isso por amigas que viram o fôlder da exposição do Santa Pelada, senti que deveria dar algum tipo de dica, ideia, justificativa. Então aqui vai:

Quando vim morar no Rio de Janeiro em 2007, fui parar no Bananeiras acolhida por Leonardo Videla e Beatriz Veneu. Tinha acabado de chegar, não conhecia ninguém, e a única coisa que tinha me trazido era a curiosidade. Dez anos antes tinha estado em Niterói para um encontro de Psicologia, mas nunca no Rio. De modo que depois de uma longa viagem para Amazônia com minha querida amiga indígena e indigenista Verenilde Pereira dos Santos, decidi que não poderia mais viver em São Paulo ou em Brasília, optando então por vir conhecer a cidade maravilhosa.

Logo nos primeiros dias Leonardo Videla me convidou para gravar umas imagens no futebol que eles faziam toda a terça feira de manhã, a “Santa Pelada”, feita só por artistas moradores de Santa Teresa. Fazia meio ano que se encontravam e eu fui conhecê-los. Fiz algumas gravações de vídeo, fui goleira algumas vezes, mas a parceria mesmo aconteceu nas resenhas, que era quando saiam por volta do meio dia para ir tomar cerveja no Bar do Gomes, e se atualizarem sobre os fatos da semana, sobre arte contemporânea, sobre as exposições, sobre a vida dos outros e tudo isso. Os artistas jogadores foram os primeiros amigos que fiz no Rio de Janeiro. E terça feira virou agenda para mim, ir para o jogo de futebol e logo para a resenha. Dali que comecei a me espalhar pela cidade.

Lógico que sempre me perguntei onde estavam as mulheres, pois eu nunca as via. Com algumas exceções de artistas mulheres que às vezes apareciam no jogo ou na resenha, a maioria das vezes eram só homens. Porque?

  • Os artistas de modo geral são muito machistas?
  • A ocupação dos espaços públicos é feita mais por homens porque as mulheres ficam mais nos espaços privados?
  • As mulheres bebem menos? Não gostam de se embriagar à toa?
  • Fica feio para as mulheres ficar bebendo de dia com um bando de homens porque elas vão sofrer assédio, preconceito, serem consideradas vadias?
  • Os homens têm mais capacidade de formar confraria e curtem mais sua própria companhia, jogar e beber numa terça de dia faz parte desse hedonismo masculino?
  • Não há possibilidade de jogo misto porque as mulheres não sabem jogar futebol de modo geral?
  • Enfim, porque as artistas contemporâneas não se ligam nessa tradição das terças feiras, ou pelo menos não montam uma tradição parecida para si? (Eu participaria com certeza)

Essas perguntas sempre foram tema de alguns debates nas resenhas, nunca se chegou a nenhuma conclusão, eu particularmente concordo com todas. As mulheres não têm tanta tradição assim de futebol (aos poucos isso vai mudando), os artistas homens são machistas sim, os homens ocupam mais os espaços públicos e as mulheres mais os privados (ainda), as mulheres de modo geral não bebem tanto quanto os homens, pelo menos publicamente. Basta ir a qualquer cidade grande ou pequena e perceber que as praças, os botecos, os jogos são ocupados majoritariamente por homens. As mulheres que ficam nas esquinas bebendo como os homens são consideradas vadias, vagabundas. “As mulheres da esquina do Gomes”, como ouvi vários homens comentando durante esses anos de Rio de Janeiro. Várias vezes tive essa discussão com Leo por exemplo, reclamando para ele dessas coisas que eu ouvia, desse machismo absurdo e preconceito contra as mulheres do espaço público.

Aqui aproveito para fazer uma homenagem as mulheres dos bares, porque elas são um alívio para todo sempre. Seja no Gomes, seja no Simplesmente, seja nesse vasto mundo. Recém chegada da Amazônia, pude constatar isso nos sete estados que eu tinha passado e nos três países amazônicos que tinha andado: sair para tomar uma no boteco da esquina era ter que se haver com um bando de homens. E isso pode ser muito divertido, mas é preciso sempre estar com o facão na bota, com as defesas afiadas e com a conivência protetiva – os aliados.

O Santa Pelada nunca foi misto, e apesar de alguns dos seus jogadores reclamarem disso, o fato é que nunca aconteceu. Por causa disso tudo: por causa do machismo do mundo. Ainda e de novo. Mas tem-se que abrir espaço. Espaço público para a ocupação feminina. Pois é o machismo que  impede as mulheres de estar na rua. Não a natureza, que não tem culpa nenhuma disso. Naturalizar essa situação não passa de uma invenção de gênero perpetuada por conveniência.

Apesar disso tudo, a amizade que fiz com os artistas jogadores do Santa Pelada sobreviveu durante todos esses 10 anos. Quando voltei a morar no Rio em 2013, pois em 2008 já tinha ido embora, para viver em alguns países da Europa e alguns estados brasileiros, não tive dúvida: Vou voltar a freqüentar o futebol das terças feiras e rever os amigos. E assim foi. Nesse meio tempo o futebol não ficou misto, nem as resenhas foram ocupadas por mulheres. E eu aceitei meu papel de representante feminina do time.

Uma década de Santa Pelada e essa exposição agora conta um pouco dessa história. Com seus sambas, seus enredos, suas camisetas, suas bandeiras, suas resenhas, suas amizades. Eu me pergunto se essa não seria a forma mais saudável de se fazer arte contemporânea? Claro, algo mais misto em relação a gênero, raça e classe, mas não seria o melhor formato?

Explico. Ao invés de um sistema de arte tão hierárquico e fechado, espaços tão disputados, inveja, calunia, plágio, fofoca, sucesso para uns e fracasso para outros, segregação, preconceito, desprezo, assédio de curador, assédio de colecionador, desnível de valor das obras, julgamento, dificuldade de abrir espaço, ser ou não convidado para a bienal, ter ou não o perfil dessa ou daquela galeria. Ao invés de tudo isso, porque não uma boa e clara pelada de rua (ou algo que o valha), onde os parceiros disputam dando risada, saem para beber juntos, montam exposição juntos, se ajudam na criação do conceito, promovem a celebração, respeitam as obras dos colegas, colaboram para que a coisa funcione bem para todo mundo, entre outras coisas?

Antes que me chamem de ingênua, inocente ou utopista, demonstro aqui minha alegria de estar fazendo parte desse time de expositores na Laurinda. A Exposição Santa Pelada é um exemplo de como podemos tratar a tal da Arte Contemporânea com muito mais horizontalidade e companheirismo do que o atual estado de excesso para uns e exceção para outros. Ou de invisibilidade para uns e super faturamento para outros, como lhe convém.

Terminando aqui o textinho, espero que as mestiçagens, as mixagens, as horizontalidades e a simplicidade do que possa ser uma pelada de rua ganhem a Arte Contemporânea.

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PROJECT TO AND ABANDON NORMAL DEVICES / one month in the forest!

PROJECT TO AND ABANDON NORMAL DEVICES

http://www.andfestival.org.uk/event/technoshamanism-residency

Our WORK IN ENNERDALE FOREST:

wild ennerdale residency, cumbria sep/oct 2011
areas of interest in relation to the programme :

# explore the relation between body, performative rituals, landscape and documentation in Ennerdale Valley ;
# engage collaboratively Wild Ennerdale site and local community ;
# work as partner of the organisation staff – assisting with conservation / maintenancework ;
# provide spaces and opportunities of interaction and feedbacks during the residency
period.

#how you would spend your time in residence | what outcomes you would expect to achieve | why?
#sincretism : what do rituals mean to us?
As usually, Latin America is still underrepresented in european cultural context and it is, at least disturbing, to acknowledge about an artistic residency in a forest preservation area, specific designed for bazilian artists. What is behind this iniciative still unveiled and is one ofour points of interest for this proposal.

In recent years, collective practices in Brasil have generated theoretical-practical-politicalsubjective platforms from different perspectives. In these contexts, actors critically undertake processes of social movements, urban space, ritual performances, immersive happenings and multimedia to produce and share experiences and content.

Recently, artist-producers in the fields of art, media and technology, have been deeply envolved in these processes to revive the contemporary scene for the construction of new formats of meetings, artistic residencies, events, encounters and the production of new experiences.

The complexity of contemporary life generates a kind of blind common state even on the most basic issues that confront the planet. And in our technological proliferation, we are still learning about our individual and collective body. We live surrounded by a chaos of information and, in lack of convincing structural bases, we rely on intuitions and affinities. In a way to create extensions of the boundaries of our urban artistic pratice and digital interactions, the most important convergence feels like to produce social spaces and territories of agency, working with the notion of expanded performative experiences and process in diferent temporalities.

We are aware about the use of technology from indigenous cultures, traditionally interactive and interdisciplinary, involving rituals and ceremonials that reach beyond urban society daily codes. Mostly, in times when we feel the urgency to reinvent, recreate, reimagine and devellop sustainable strategies oriented to the growth and continuum of the natural world, the appropriation of those practices – cerimony and ritual – is a deep realm in a way to transform our living conditions and ethics basis as a relational and interdependent living organism.

Indigenous ceremonies use interdependent technologies to enter a synesthetic state of transcendence envolving the community into a shared and undifferentiated space, in which every action is part of another action, in which thought and emotion are not limited by temporal powers.
We search for counterreactions and break downs throught out our artistic practice.

What is technology and what motivates us to employ such tools as extensions of our bodies and communcation language structures for interaction and social responsable change and how this elements – body, machine, nature, multimedia, ritual, performance, landscape, artifitiality, art-technology – can be juxtaposed and interconnected, are the questions that bases this project.

We intend to experience the period of the residency as an interface to multiply
perspectives, negociate vocabularies, experience language and diversify narratives in the direct contact, sensorial and mental, with the natural and preserved landscape, collaborating to create a shared space with the local community.

[ temporal strategies ]

To propose performative rituals of immersion, liberation, purification and sensorial awakening in direct contact with the environment, as an attempt to take us into more deeper levels of political, sociological and cultural subjective | subversive practices ;
To generate a subjective interface of the hole period of the residency, available in the web and formally developed from continous documentation – envolving the natural environment, rituals, landscape, performances, local stories and narratives, testimonials, noise, community, labor etc – to explore the potential around the sonic, the film-essay, the archieve, speculative futures and mythos-fictions ;
To discuss about broader relations of the experimental practice as an on-line platform connected to the experience itself ;
To organize a workshop in aim to produce a collective photo-story through performance and ritualistic processes, built from the biographies of the participants and through multimedia tools ;
To organize a open event for the community to share about the experience through screenings and images with live commentary, followed by discussions about the concepts that sustain such practices ;
To not bring and not leave nothing behind us that might jeopardize the natural environment.

[ materials ]

internet
projector
speakers
photo and video cameras
personal objects

[ period ]

flexible

[ short biographies and links ]

Ali Khodr
Born in Lebanon
Brazilian nationality
Lives and works in Paris
PHD student in visual arts, researching about the confrontation of the notion of continuous process of artistic practice and the notion of eventual actions:

Member of the collectif MERGULHO, develops projects since 2006 in order to create
through drawing, video, photography and printed works methods of sharing experiences and projects such as TEMPORARY STATES and WHEN WE DO NOT
KNOW HOW.
http://www.artbaseasso.wordpress.com/processozero

Fabiane Borges
Born in Bagé, Brasil
Lives in London and works around the world
Psychologist, undertaking a Ph.D. in clinical psychology at PUC-SP. She has been involved in the production of events about art, politics and technology in Brazil since 2000 and has published three books last year that deal with the subject, available at:
https://catahistorias.wordpress.com
http://www.youtube.com/catadores
http://integracaosemposse.zip.net
http://tuliotavares.wordpress.com/acmstc

Camila Mello
Born in Porto Alegre, Brasil
Lives and works between London and Brasil
Multi-media artist, researches the relation between body, space and time through image and sound documentation related to experiences in imersive and temporary contexts:
http://www.youtube.com/corpoliquido#p/u/6/eVRH8BunoOM
Since 2005 has been a member of MERGULHO, a collective platform that explores the
possibility of restoring subjective realities into shareable experiences:
http://www.corpoliquido.wordpress.com
http://www.youtube.com/corpoliquido
In 2010, MERGULHO and Rodrigo Lourenço, of DESVENDA Contemporary Art Fair,
organized the project SEU – Urban Experimental Week, an on going experimental art
process about experience in public space, as a foment of collective work and interchange
between artists and community: http://www.portoalegreseu.worpress.com
Also in 2010, joined Ali Khodr to create BASE art association, a collaborative space in
Paris, on the notion of encounter, relation and the archetype of the artist as a worker:
http://www.artbaseasso.wordpress.com/processozero
[ related links ]
http://www.youtube.com/corpoliquido#p/u/13/yVOSpf2XngU
http://www.youtube.com/catadores#p/u/0/VcPU_5KCQ70
http://www.youtube.com/corpoliquido#p/u/20/JICCPPHr9NI
http://www.youtube.com/corpoliquido#p/u/11/GU3OJGJAIJw
http://www.youtube.com/corpoliquido#p/u/4/q0HWlD4b8Ig

http://www.youtube.com/catadores#p/u/8/dp5IjbCXG5M