INAPTA

Para ler o texto na íntegra – aqui: Inapta

Eu queria arte contemporânea, nome que espocava na minha boca como uma afta, uma cárie, o lugar onde minha língua se lambuzava, colocar a língua lá e dizer arte contemporânea, arte contemporânea. Não sei bem que momento essa herpes se grudou no meu lábio, deve ter sido naquele projeto do museu sem maré, que o rapaz de barba que parecia um mouro falava de potências, de obra-ação, de dispositivo, de cena expandida, de palavras que fizeram todo o sentido pra mim e que por fim, me tornaram artista. Fui arrebatada por aquela eloquência de mártir da arte, daquele D. Quixote convertido que falava em libertação das grades de ferro que cercam os museus. Talvez tenha sido ali que brotou dentro da minha boca essa cena contemporânea, e que por fim me levou a ter um filho com um artista fodido, que também falava em arte contemporânea, mas sem tanta exaltação quanto falava o mouro. Eu queria um filho mouro, mas fui ter um filho branquelo, com um artista sequelado, que agora sei, sabe falar em arte quando está na quarta dose de cachaça, e aí sim, brota um utopista.

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