Sem etnia e com o Faro Aguçado

Texto para o Outras Palavras – Coluna Fêmea

Também era companheira, emprestava o ouvido para as histórias mais tristes, dormia junto com os solitários, com as vazias, fazia massagem, falava asneira. Criou uma rede interdependente, com quem contava nos dias de seca, sem dinheiro, sem abrigo, quando bêbada perdia a hora, o celular, a entrada, a dignidade, quando toda sua pobreza pesava. Era frequentadora dos abismos. Apesar do nariz empinado lhe levar pro alto, para as festas mais badaladas, para as classes menos operárias, pro champanhe de graça com fartos comentários sobre cinema e bolsa de valores, não era raro voltar ao lugar de origem, o abismo. Naquele lugar ficava mais atenta ao eco do mundo, se irmanava com os desvalidos, com as que não tinham força pra conseguir com aquilo tudo que era prometido na televisão. Ela sabia que era feita para viver como larva, toda sua condição existencial a levava nesse sentido. O lugar onde a gravidade puxa mais forte. E assim, rente ao chão por vezes chorava. Não sofria só por si mesma e seus companheiros fodidos, mas também pelas plantinhas que já não existiam na volta do poço sem fundo, não havia mais árvore para acolher sua dor, a beira do abismo era um cemitério de árvores. A fumaça sufocava o grande buraco junto com o barulho da fábrica. Não havia consolo ali, apesar de saber que era dali que tinha brotado, como um pasto mil vezes ruminado e por fim expelido pelo reto de algum bode desalmado. Era difícil fazer poesia ali.

Para ler mais, aqui:

http://pt.scribd.com/doc/238237135/Sem-Etnia-Do-Faro-Agucado

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