VAZADORES (Os Ladrões da Galeria)

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VAZADORES (Os Ladrões da Galeria)

Por Fabiane Morais Borges*

Constantemente corremos o risco de estacionarmos exatamente no posto que outrora criticávamos. Risco popular, em que muitos caem sem sequer perceber ou fazer autocrítica. A história está cheia disso, o escravo fascista, o porteiro autoritário, sujeitos que assumem o papel do opressor. Esse comportamento se dá de forma inconsciente, geralmente com algum gozo, enfeitado por um delírio de poder, que se sustenta com o reconhecimento e a inveja alheia. Os descuidados podem não perceber quando estão assumindo o posto, são os outros que notam.

Para não ser prolixa, nem fazer militância vazia contra uma sociedade baseada no poder e no reconhecimento, não posso agredir deliberadamente os modelos de contenção e inscrição dos sujeitos e grupos no mercado de trabalho. Seria muita irresponsabilidade, como se eu mesma estivesse fora desse jogo. Mas tampouco posso ignorar o fato de que é inadmissível que, depois de tantos anos de experiência urbana, trabalhos com movimentos sociais e ações de arte política, sejamos ingênuos e pensemos que estamos apresentando alguma alternativa aos modelos institucionais e do mercado, quando na verdade só repetimos padrões de exibição e notoriedade.

As experiências do NA BORDA passam por essas ambiguidades e os coletivos que participam disso precisam pensar sobre seus procedimentos, para poderem propor uma alternativa aos modelos viciados.

Por um lado, sabemos que a matéria com a qual os coletivos atuam ainda tem um conteúdo urbano e político radical, dialoga com a vida pública e com problemas que emergem na constituição das cidades, questionando os valores sociais e o próprio instinto civilizatório. Por outro lado, sabemos das dificuldades que sofrem ao tentar sustentar essas práticas, seja por falta de recursos financeiros próprios ou falta de investimento de órgãos competentes. O mais fácil é que caiam com facilidade na repetição de metodologias de representatividade, em curadorias seletivas, em critérios de valorização de certos grupos em detrimento de outros.

No dia em que eu estava fazendo a moderação do NA BORDA, uma integrante jovem do coletivo COBAIA, Ana Rosa, falou algo que mudou significativamente a discussão em cena. Ela disse, mais ou menos pelo que lembro, que esse tipo de exposição não dialogava com os jovens, que tinha uma gap geracional em torno do nosso trabalho e a vida dos milhares de jovens de São Paulo, e de certa forma nos disse que não tínhamos interesse na criação de acesso ou diálogo, o que enfraquecia a ação. Outra jovem, provavelmente uma moradora de rua, também entrou no debate, tomou a palavra e começou a chorar, dizer que era muito injusto, que ela tinha que cuidar de todas aquelas crianças na rua e que as pessoas naquela sala ficavam só falando e não faziam nada. Logo saiu da roda de conversa. A partir dessas duas intervenções, o teor do debate mudou, e passou-se a questionar a questão da instituição por trás da intervenção urbana, da ação dos coletivos, e do quanto isso despotencializava as próprias ações.

A questão é complexa, e sabe-se do tamanho da exigência que essas duas jovens fazem aos artistas, os quais mal conseguem sustentar as próprias contas, as próprias obras, tendo que dividir parcos recursos entre as várias pessoas que integram seus coletivos. E que certamente precisam trabalhar em outras coisas para sustentar suas vidas. Elas exigem uma responsabilidade social com os conteúdos produzidos, porque de certa forma acreditam na arte, no trabalho dos artistas, em seus discursos. Acham as ações potentes.

A profissionalização dos coletivos de arte já foi debatida em muitas redes, e tem como uma de suas vertentes mais óbvias a domesticação. Ao tirar-se a urgência das ações, tira-se também a necessidade concreta do contexto. Abandonando o contexto, os grupos trabalham com temas abstratos, que de alguma forma se desligam da cidade e passam para esse outro lugar que é do efeito midiático, da espetacularização das ações, que tem uma função significativa, que é a mudança de valor, a formação de opinião, mas que corre o risco de se desvincular totalmente da vida pragmática, cotidiana. A invenção de mundos concretos dá lugar à excelência estética, reduzindo enormemente o vínculo das pessoas com a ação.

A diferença entre obras de galeria e obras de intervenção na cidade diz respeito também ao público. Se na primeira ele já tem seu lugar de espectador da obra, na segunda ele é parte dela. Isso não é retórica, é uma constatação. As experiências vividas por esses coletivos nas ocupações, por exemplo, foram transformadoras para a vida de artistas e público, o cotidiano das pessoas é que estava sendo modificado. Muito diferente do consumo da obra de arte da galeria, da interação com as obras de arte em espaços protegidos. Para mim, parece que o cerne da questão se assenta na força da obra, que na instituição vira coisa de especialistas, por mais que as criancinhas da escola frequentem tais espaços guiadas por seus professores.

Mas não se trata somente de criar um antagonismo entre galerias e espaço público, o problema é bem mais difícil que isso. Os espaços institucionais, assim como os editais, são plataformas legitimadoras da obra, que determinam o que serve ou o que não serve para ser consumido por um mercado faminto por novidades. Ao formatarem seus editais, elegem as características dos eventos, desvirtuando por princípio as características mais promissoras dos coletivos, que são os trabalhos em rede estendidos, coletivos. A cultura compartilhada dá lugar a uma competição, em que os grupos são desafiados a criar obras que lhes deem notoriedade, seja pela espetacularização de alguma realidade social, seja pela pesquisa de linguagens individuais.

Outra coisa que se percebe como risco é a apropriação dos movimentos. Apropriam-se constantemente das ações das redes, diminuindo seu tamanho, elegendo seus representantes, fortalecendo seus nomes e criando contenção, como um cinturão imaginário que separa o movimento todo dos seus eleitos. Um cinturão que constitui o imaginário político da civilização moderna. Não há espaço para todos na selva de pedras. Essa fissura cria traumas, recalques, desigualdade e, principalmente, exclusão. Os grupos não reconhecidos passam a pensar o evento dos seletos, o curador do evento, os artistas envolvidos no evento como reprodutores de um sistema de opressão, hierarquicamente superiores, algo a ser combatido.

Os riscos aqui descritos não têm interesse em imobilizar nenhuma iniciativa; muito pelo contrário, tenta amplificar uma situação na maioria das vezes ignorada. Acredito que mostrar essa tensão, ou esses cinturões, seja necessário para que se crie alternativas à repetição cansativa, a que estamos todos acostumados. Não se sabe exatamente quando se muda de status, quando se para de ser o questionador e crítico e se passa a ser o protagonista na criação de exclusão. Esse momento é delicado e exige certa dose de ousadia para encará-lo, porque se sabe que, no jogo do poder, nenhum lugar é estável. Mas sabemos também que normalmente esse lugar do poder está sempre mais próximo do que pensamos. Longe de julgar comportamentos ou de fazer críticas severas à cena que se desenhou no NA BORDA, faço um esforço aqui de criar uma alternativa simples, interessada em ampliar a acessibilidade dos grupos aos eventos protagonizados por coletivos mais reconhecidos, e manter assim vivos a crítica e o questionamento, sem necessariamente criar antagonismo.

Chego finalmente nos Vazadores, os ladrões da galeria. Quem se criou perto de açudes ou barragens conhece o termo. É para onde a água vaza quando a contenção não dá conta de sustentar seu volume. No caso de eventos como o NA BORDA, os Vazadores podem ser lugares abertos dentro do evento, da exposição, que funcionem para receber a demanda externa, tanto do público em geral, quanto de colegas, outros coletivos, que de alguma forma sentem que fazem parte do evento em questão.  Não se sabe que formato tem os vazadores, pode ser uma parede, um projetor de vídeos, um espaço vazio, um site aberto, uma televisão com vídeos, pode ter os mais diferentes formatos. O que importa é manter esse espaço vivo para receber as informações de fora, deixar vazar o conteúdo interno, manter um diálogo com o lado de fora, com o externo, não fechar o acesso a esse encontro, mas, ao contrário, promovê-lo, para que tanto as obras dos grupos convidados, a produção do evento, como todo o conteúdo em questão seja espaço urbano, intervenção na cidade, ou outro, estejam num jogo produtivo de acesso e autotransmutação.

Os vazadores são os buracos da contenção, afrouxam o cinturão divisório, permitem que a participação alheia se efetive,  como força inovadora da própria exposição. Estou certa de que os vazadores são medidas inofensivas, que não mexem radicalmente na estrutura institucional, não destróem as contenções, nem servem como alternativa para todo tipo de proposta, porém apresentam uma forma interessante de lidar com os excessos produzidos dentro do próprio evento. Uma maneira de fazer vazar, achar uma saída, ao invés de insistir na cópia de si mesmo.

Ampliar o espaço de diálogo com o exterior em qualquer evento é uma boa forma de exercer a generosidade, manter a vitalidade do evento e, ainda por cima, receber informações novas que modifiquem os conteúdos internos, os enriqueçam. A criação de acessibilidade não é somente uma postura ética, é também uma necessidade,  uma forma de manter o debate incessante, sem cristalizar um lugar de poder, alvo fácil das pedras certeiras. Fazer vazar é roubar algo da galeria!

*Psicóloga, ensaísta, autora dos livros Domínios dos demasiados, Breviário de pornografia esquizotrans. Organizadora de dois livros da Rede Submidialogia: Ideias perigozas e Peixe morto. https://catahistorias.wordpress.com | catadores@gmail.com

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