Texto sobre os Riots – para revista Cadernos de Subjetividade

FOGOS DE UMAS NOITES DE VERÃO

Por Fabiane Borges e Hilan Bensusan *

Nas ruas, sensação de irrealidade ao mesmo tempo excesso de presença. A fuga. Agora. Left, left, Ally road, to the Ally road. Caminha, dispersa, sirene distante. Dá tempo de botar fogo em mais um carro. Desarmados, o fogo é a única saída. O fogo é barulho e espetáculo, assusta e encanta, pequenas multidões em volta das fogueiras de carros. Quebra o vidro, corre, arromba a loja, a TV plasma bem grande. Foda-se! Os ratos e a polícia. Ambos vigiados, os legítimos e os bastardos, os filhos da rainha e os filhos da puta.

A pirotecnia na Inglaterra começou com a morte de Mark Duggan, negro de origem indiana morto em circunstancias semelhantes a Jean Charles, o brasileiro morto pela polícia em 2005. Ambos foram baleados em situação de fuga. Mark era um possível participante de uma gang chamada “Star Gang” no norte de Londres, em Tottenhan, e ao que tudo indica, seus parceiros sairam às ruas para vingar sua morte, colocando fogo nos carros da polícia, mas o que aconteceu em seguida foi a insurgência de muitos outros grupos, por muitos outros lugares do pais.

Cuidado: inflamável
Distúrbios espalhados pelas ruas de um país não são feitos somente de vingança específica a uma situação, ou só de racismo, ou pauperização compulsória, ou ainda perda de direitos e policiamento arbitrário, mas também da inflamabilidade das pessoas. Palha seca alastra o fogo! Nas revoltas que se espalharam a partir de Tottenham no início de agosto, cada insubordinação era combustível para a seguinte. Por alguns dias, parecia que a coisa se alastraria por todas as ruas do país até tornar a Downing Street (rua dos altos nomes do governo britânico) irrelevante.

Moda: hoodies e burqas
As câmeras de vigilância captam hoodies, que quase como burqas, viram uniformes que apagam os traços reconhecíveis e niqabs protegendo as identidades faciais. A influência estética nos rioters mistura hiphop, blackblock e gangster culture. São em frente a essas câmeras que os bandos de moços encapuzados e moças de mini saia também emcapuzadas fazem suas ações diretas com estopins, isqueiros e latas de lixos. São capazes de arrombar, queimar e ocupar as ruas, mesmo que por um instante. Os capuzes viram um uniforme improvisado, mas garante um espaço privado. A privacidade dos hoodies – ou da burqa, já que isso também marca a onda de chauvinismos que varre a Europa – contra a privacidade das contas bancárias, das lojas vigiadas pela polícia, das câmeras de segurança à serviço dos fluxos de capital. Para nós, transeuntes na madrugada entre Graham Road e Clapton Square, era uma revolução: o assalto dos capuzes pretos parecia um turbilhão, ainda que rarefeito, indomável.

Estado Revoluciónário
Desde que chegamos em Londres, em novembro de 2010 presenciamos inúmeras manifestações nas ruas, as pessoas estavam em estado de revolta, e diziam que desde os anos 2002/3, quando das manifestações contra a adesão do governo britânico à guerra contra o Iraque, não viam tanta mobilização. Durante praticamente todas essas passeatas houveram manifestações violentas, e desde então já se falava da presença explosiva de jovens negros da periferia, que como muitos estudantes, colocaram fogo em carros, ocuparam prédios, resistiram à polícia e mostraram seu repúdio às novas leis. Alguns amigos ativistas comentavam curiosos sobre a presença dessa juventude secundarista, festiva e aguerrida nas passeatas, mas não sabiam muito bem identificar qual era seu papel dentro do movimento. Muitos desses jovens estavam nas manifestações ocasionadas pela morte de Mark Duggan. Certamente a influência revolucionária não só vem das manifestações organizadas contra os cortes e as ações diretas dos ativistas, como também das insurgências da Tunísia, Egito, Síria, Libia, etc. A revolução é um estado como diz a ativista egípcia Sanaa Seif (17 anos)1. Nervo solto, as vezes não se pode ter a paciência dos ativistas profissionais, e não se quer perder tempo com reuniões incessantes, – quer-se pirofagia, e manifestação ontológica da resistência ao controle. A articulação é espontânea, não existe projeto (aparentemente), nem líder político. São gangs revoltadas. Ou estado de gang: agrupamento e proteção. Elas se organizam em regime de rede por meio de celular e bluetooth. A liderança é difusa – há uma presença importante de meninas. Mas estão sendo pegos como ratos. E como bodes espiatórios. Basta ter sido capturado pelas cameras de vigilância, ou serem vistos observando as ações, que já podem ser incriminados, uma forma de manter as pessoas em casa, medo de serem acusadas e condenadas culpadas.

Nós não temos dinheiro
O fogo é indiscriminado, os ataques destinados ao que era possível – inflamável – e não ao lugar simbólico por excelência. Acender a cidade, em protesto. Fazer queimar o que podem. “Nós queremos mostrar aos ricos que nós fazemos o que queremos” – diz uma riot girrrrrrl. E diziam assim: nós não temos dinheiro. E as pessoas criticam isso por não ser razão suficiente para saque. Mas isso é a melhor razão possível, por que exatamente eles não tem dinheiro? Eles apontam justamente para o problema: PARA ELES NÃO TEM DINHEIRO!!
Os insurgidos, – indignados mas não do tipo dos que acampam, mas dos que fazem a ação direta – eram o Outro da classe média adulta e responsável: moleques, imigrantes, negros e pobres. Muitos deles se enquadravam no que nos últimos anos cada vez mais se chama de chav. A palavra é ela mesma uma lata de lixo, onde cabem muitas coisas. Muitos dizem que ela está associada aos últimos inquilinos das council houses, casas alugadas pelo governo, na sua maioria construídas entre os anos 30 e 70: dizem que chav é um acrônimo para Council House and Violent. Mas os etimólogos dizem que a palavra, dicionarizada recentemente, vem do termo cigano Chavi, para menino ou pirralho. A palavra é derrogatória e designa juventude transviada, pobre e que não se veste, não fala e não se enquadra nas imagens de classe média. Muitas vezes chav é usado também para os adultos, que se vestem fora dos gostos padrão e que são dejetos da cultura média. Chav é o imigrante, mas cada vez mais é também o branco que não venceu na vida, o looser, o white trash, como se diz nos Estados Unidos. É o lixo, aqueles que não se enquadraram no esquema de vida da classe média de aspirar um bom emprego, a casa própria e uma família funcional. Owen Jones, em um livro recente (Chavs – the Demonisation of the Working Class, Verso, 2011) aponta para a crescente popularização do termo como uma manifestação de classismo direcionada ao que sobrou da classe operária. Classismo e xenofobia imbrincados em uma palavra. Os rioters de agosto – se bem que menos brancos que o estereótipo corrente de um chav – provém da mesma lata de lixo.

O ambiente Breivic
O estado de fúria despertou os medos mais constantes e mais acalentados na classe média local. Os saqueadores insuflados enfrentam com violência o controle da polícia britânica. As pessoas morrem de medo, tem insônia, pensam que as gangs de negros, de chavs e de muçulmanos vão destruir suas casas e suas vidas. Olham a BBC e tremem no escuro. Não saem as ruas pela noite, e ficam vidradas na TV e na net. Tem medo que os negros tomem o poder, pensam que são todos mulçumanos, terroristas, confundem fatos históricos, revoluções geopolíticas. Há um medo geral de que os imigrantes se revoltem – isso é parte do imaginário dos que se orgulham de suas origens britânicas. Há um ambiente de guerra de civilizações em que os valores brancos são colocada em questão por um pobrerio feio, mal-vestido, inconveniente e chav. E então a polícia pode dizer que são todos bandidos, ou filhos de famílias de bandidos, famílias desfuncionais de pobres porque criminosos, pessoas que estão não apenas quebradas mas também doentes, como diagnostica o primeiro minsitro. E a maior parte da imprensa pode dizer que trata-se de um estado de coisas promovido pela falência dos valores tradicionais de família, meritocracia, respeito à propriedade e à ordem (como faz a colunista Melanie Phillips no Daily Mail). Há uma ressonância no manifesto de Breivic (o norueguês que saiu matando jovens em um acampamento em julho de 2011) do discurso das instituições de proteção à cultura e aos hábitos ingleses (como a EDL, English Defense League), instituições que crescem em atenção e na presença na agenda das discussões sobre imigração.

Onda gigantesca de crimes comuns?
Semanas depois dos distúrbios, a batalha é acerca do caráter político dos eventos. O governo e a polícia tendem a considerar que se tratava de criminalidade, de crimes comuns, motivados pela falência moral da sociedade alimentada de benefícios e de concessões a famílias desfuncionais. Não se trata de reação à violência policial e à pauperização crescente das periferias, diz o governo, mas apenas a consequência de uma permissividade generalizada que foi instituída por anos de políticas concessivas e tolerantes com os preguiçosos, com as mães adolescentes e com os imigrantes criminosos. A resposta, para eles, é mais endurecimento: menos bem-estar social, mais rigor com a imigração. Cameron anuncia que a culpa é da brandura na aplicação das leis acerca da ordem pública que gerou a onda gigantesca e sem precedência de crimes comuns. Mas o que são crimes comuns? São como os crimes que ecoam Paz. Justiça. Liberdade. a partir da cela de Rogério Lemgruber do Comando Vermelho na Ilha Grande?

Blame the tories?
Por outro lado, as manifestações de protesto à reação da mídia e do governo aos rioters incriminados (como a marcha que participamos em 13 de agosto de Dalston, Hackney a Tottenham, ver http://esquizotrans.wordpress.com/2011/08/13/hackney-last-days-082011/) procuram politizar os saques. Um dos slogans: culpem os Tories (o partido Conservador de Cameron) e nao os nossos filhos. Outro: culpem os bancos e não os nossos filhos. A ideia é culpar o governo, os cortes, o cinturão de proteção aos banqueiros, o racismo da polícia. Se houvessem três vezes mais pessoas nas ruas, seria impossível apresentar tudo como “uma onda de crimes em proporções gigantescas”. A dureza da reação da polícia – com o parlamento permitindo uma gradativa militarização da polícia britânica – mostra a força da insurreição. Porém esta voz é cada vez menos ouvida agora nos meios de comunicação que dão todo os dias espaço para o vocabulário do crime organizado, das prisões e das punições; falam de riot thugs (arruaceiros), de criminosos e de looters (saqueadores).

Os riots que vêm
As marchas mesmo não causam maior transtorno, a polícia as acompanha de perto, passo a passo. A eficácia como protesto de marchas assim é limitada, já que elas não podem atacar a estrutura de tomada de decisões e são facilmente apropriadas pelo bipartidarismo compulsório no pais.

Temos a impressao, dado o triunfo do governo nesses dias que se seguem aos distúrbios e a decepção de muitos ativistas, de que o governo e a ordem terminaram fazendo ponto. O governo conseguiu reunir apoio para suas medidas de segurança e ordem e de estender este apoio aos cortes nos benefícios – ja que o pobrerio é todo delinqüente mesmo… Mas as conseqüências das suas políticas ainda serão sentidas em muitas partes do pais e mais tumultos, eles sabem, virão.

Esquizotrans – http://esquizotrans.wordpress.com

Fabiane Borges é psicóloga, ensaísta, gosta de performance, escreveu “Domínios do Demasiado” Ed. Hucitec 2010 e o livro “Breviário de Pornografia Esquizotrans” Ed. Ex Libris 2010, tem tentado tirar som dos próprios músculos e ficado perplexa diante da instabilidade de tudo. Faz doutorado em tecnoxamanismo, no nucleo de subjetividade, PUC-SP

Hilan Bensusan, Lê tarôt de animais, escreveu “Breviário de Pornografia Esquizotrans” Ed. Ex Libris 2010, e o livro Excessos e Excessões, Ed. Idéias e Letras 2008, ensina metafísica e anarqueologia na UNB – Universidade de Brasilia, gosta do fogo quando esfria, e prefere ganhar meias calças coloridas de presente.

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