sobre o livro de maria llopis


Estou sentada num café em Holborn, centro de Londres, está frio la fora, aqui dentro do café me encosto no vidro, vem um fino sol de fora, tento disfarçar minha excitação em ler Maria Llopis, seu livro “El pós porno era eso”. A conheci ha um mes, em Londres, onde ela também está vivendo por um tempo. Fomos ver umas obras de Anish Kappor juntas e tomar chá.

Agora consegui o livro em Barcelona (Pedro me deu) me inspira muito a leitura, não só eroticamente, como também a forma de escreve-lo. O pos porno, entre outras coisas,  ‘e um novo estilo literario. Maria faz um percurso auto-biográfico, político e teórico através de suas experiências sexuais, suas dúvidas, suas ambiguidades, a descoberta do sado masoquismo, a paixão desesperada por um homem X. Ela leva o leitor para festivais queers, crítica de moda, mostras de cinemas pós porno, usos de drogas, doenças, sofrimentos, faz com que o leitor voyerize seu estilo de vida e dos seus companheiros ativistas, contando-nos com detalhes: comportamentos, discussões, producões, modos de se organizar e de achar saídas no movimento feminista e pos porno. http://www.mariallopis.com/

É um livro honesto, muito sincero, provavelmente com alguma dose de ficção, que nos deixa proximos do que rola nessa rede.

 A história de X, por exemplo, um dos personagens do livro,  homem jovem,  inocente e até distante de toda discussão porno, ou pós porno, vai a levando desejar o masoquismo, vai a guiando para um lugar de sexualidade e desejo bem diferente do que estava acostumada. Os amigos advertem, Maria, o Sado-maso pode ser um caminho sem volta, depois de se viciar nele, a heterosexualidade normal vai se tornal banal, insuficiente, vais querer ir cada vez mais fundo.

Enquanto nos dá um vertiginoso panorama da produção cinematográfica e audiovisual do pós porno, fazendo análise de filmes e discutindo corpo e prazer, sua relação com X vai levando a leitura também para esses lugares mais obscuros, onde tem que lidar com medo, solidão, desespero, profunda angústia, trazendo a tona suas incoerencias politicas, feminismos possíveis na cama e outros impossiveis, com frases marcantes como: “Qué pasa si estás jugando com tu chico y te pone un pie em la cara y, de repente, te das cuenta que te gusta y mucho? Le pides que lo haga otra vez, que te pise, que te deje chuparle los pies y entonces estáis follando y piensas en lo mucho que te gusta que te órdenes em la cama y que te someta”.

Me interessou muito o intrincamento desse feminismo pungente, que busca  novas formas de manifestação, longe da dominação heteropatriarcal e o prazer na submissão. Isso vivido como um susto. A explicação tendo que ser construída enquanto escrevia o livro e vivia a experiência. Cedendo ao desejo patriarcal, deixando-se escravizar por um macho malvado dominante, vendo até onde iria sua força, depois tentando viver a experiencia SM com outras pessoas, como com uma travesti, tentado pensar se o masoquismo, o prazer possível na dor, tinha cara… seu masoquismo tinha a cara de X.

Muitas outras coisas são interessantes no livro, como quando conta sua relação com a prostituição, todas as crises, a tentativa de ceder a ela para experimentar seu ativismo na prática, queria viver a experiencia de foder por dinheiro, pra pagar as contas, pra enfrentar o medo e a moral, de não defender a prostituição de boca vazia, mas de poder usa-la a favor das lutas feministas… sua decepção com o fato, suas profundas confusões entre a política e a experiencia… Achei as questões que trouxe sobre essas imersões, muito comoventes e convincentes, além de enriquecedoras.

Também os surpreendentes artigos de revistas que recomenda, discute e conta, alguns de sua autoria, outros de grupos do pós porno que encontrou em festivais internacionais, como India, México, Alemanha, as formas de sobrevivência dos que se dedicam ao pós porno, como atividade principal das suas vidas, afim de inscrever essa nova forma de pornografia nos desejos e nos corpos.

Amei ler o testo yonqui de Beatriz Preciado, Teoria King Kong de Virginie Despentes, agora to lendo o Manifesto Contra-sexual da Preciado, que invoca a criatividade para destruir o significante sexual heteropatiarcal das mentes…. e outros maravilhosos livros de pessoas que estão construindo essa nova cultura “pós porno”.

Me gusto mucho tu livro maria…

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