compartilhando ansiedades

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Logo comecei a fazer algumas viagens, Bruxelas, Cairo, Beirute, Damasco. A partir daí parti para minhas duas idéias principais, fazer um programa de rádio para por em pauta os assuntos do meu interesse e partilhar isso com a grande rede e também as entrevistas, para documentar grupos e pessoas que estavam produzindo coisas em suas cidades,  questões relativas à arte, comunicação e tecnologia, de um ponto de vista ativista, ou ainda, da viva idéia de vanguarda.

No Cairo, tive uma experiência incrível com o espaço público. A cidade dos homens, poderia dizer. Mas ainda das pessoas. A cidade é o espaço onde as coisas visiveis acontecem. Os egípcios adoram truques, adoram enrolar, mas isso faz parte de um estilo de vida, de estar na rua e procurar algo novo, que aconteça, seja fumar uma xixa ou encontrar turistas desencontrados, acompanhá-los, levar para tomar um chá em suas casas, em seus escritórios, em seus bares preferidos, trocar idéias e talvez levar alguma grana, algum presente, alguma novidade.

Essa noção do espaço público estava esquecida para mim. Por muito tempo o espaço público tinha se tornado o espaço da manifestação política e artística, o lugar de passagem que leva de um lugar a outro, mas o Cairo me lembrou a cidade pública, onde a rua é o espaço dos encontros, dos jogos, das trocas de informações. Isso no Cairo acontece com tranquilidade, grande parte das pessoas utilizam as esquinas, as calçadas, os bares, os cafés para estarem, como salas de estar, como lugares onde alguma coisa pode acontecer: um trabalho, um dinheiro, um conhecimento. Esse espaço definitivamente é dos homens, as mulheres o ocupam com mais objetividade, seja para consumir, seja para dirigir-se a algum lugar, seja para jantar.

Me foi dado o seguinte dado: 80% das mulheres com mais de 40 anos sofrem castração,(hablacion) seus clitóris são tirados quando fazem 12 anos. Com a população jovem a estatística diminuiu para 60%, isso quer dizer que as coisas estão mudando, mas a passos muito pequenos para quem apregoa a liberdade, o direito de viver o próprio erotismo, ter poder sobre o próprio corpo. Esse número alarmante me deixou com muito ódio desses homens livres nas esquinas, dessas mulheres privadas do espaço público constritas ao espaço privado, familiar. Que sofisticação é preciso para alcançarem seus desejos? Há um impedimento categórico aos seus circuitos particulares.

Ao mesmo tempo que isso acontece, há um outro lado, o lado do companheirismo, da ligação com a familia, que cuida dessa mulher, desse homem, que não os deixa sosinhos, sofrer sosinhos, morrer sosinhos e doentes. O envolvimento familiar, das amizades, da companhia são muito mais efetivos. Não se está sozinho nessa vida, como a cultura ocidental apregoa. Não se vê mulheres ou homens sosinhos sofrendo sua solidão em um apartamento pequeno, isolado, desolado, sem companhia. Existe um cuidado cultural, familiar ou de amizades, que tem como princípio o cuidado do outro, seu bem estar. Muitas das conversas que ouvi nas ruas do Cairo, dizem respeito a fazer o outro feliz. A cuidar dos seus, de priorizar seu bem estar. Talvez aqui encontremos um paradoxo interessante, que sobrepôe pontos de vista de ambas sociedades. O estar sosinho como liberdade, o de estar junto como cuidado.

Minha dúvida reside em como apontar esse paradoxo feito de sobreposição de culturas com propostas tão diferentes? Quero dizer, como definir modernidade sem pensar em colonização? Como preservar o que há de interessante e humano numa sociedade sem destruí-la com os apelos do crescimento, da modernidade, da tecnologia? Como juntar a modernidade e o cuidado?

Uma das caracteristicas dos grupos políticos, ativistas da contemporaneidade é exatamente esse. Uma definição que ouvi no Artemov em Belém de um coletivo que se aventurou nos rios do Pará foi esse: mata, rio e banda larga. Esse é o paraíso. Não se trata de cuidar só dos seus no entanto, se trata de uma postura de vida, de cuidado, em grande escala, à grande rede. Aos afins.

Estava pensando dia desses que software livre, por exemplo, é um acontecimento no que tange ao reconhecimento das redes afins ao redor do mundo. Um lubrificante social. Algo como uma religião nova, que faz as pessoas se aproximarem e trocarem idéias e se sentirem parte de um movimento global, terrestre, bem diferente da globalização capitalista que tem como objetivo colocar ao redor do mundo seu próprio nome, sua própria exclusividade. Esse reconhecimentodo software livre faz com que as pessoas sintam-se fortes, principalmente porque a noção de software livre alavanca todo tipo de liberdade, ecológica, sociológica, tecnológica, erótica, etc. Os movimentos vão criando matilhas, a diversidade é uma consequencia bem vinda.

Pensar a diversidade cultural somente sob o ponto de vista do projeto de progresso e desenvolvimento capitalista realmente empobrece a diversidade cultural, porque no bojo desse projeto está pressuposto uma ideologia específica, a de tornar o mundo inteiro capitalista, sem resistencia, sem diversidade. O grande projeto megalômano e ao mesmo tempo hierarquico e obediente. O tal império das nações ricas e desenvolvidas.

Certo, não há liberdade no fanatismo nem no monoteísmo. Talvez ahi que o xamanismo chame atenção de tantos libertários ateus… Porque privilegia a conexão cósmica, ou pelo menos gostamos de pensar assim. Um dos últimos redutos da imanencia propriamente dita. Da metafisica composta de natureza e suas forças, do excedente do mundo pra além do mundo humano ou do privilégio aos objetos, ao altar particular, individualista, a religião própria. O monoteismo pode ter trazido liberdade em algum momento, por radicalizar alguns processos que estavam sendo dominados por outros monoteísmos como a igreja católica, mas talvez já tenha cumprido seu papel histórico, como bem gosta de falar os marxistas.

De qualquer modo, me passou pela cabeça que o software livre era essa nova religião, não imperial, mas radical, que traz em sua insígnia a liberdade. Confuso, tecnocrata, mas aberto o suficiente para admitir em suas entranhas todo tipo de vontade, e ao mesmo tempo comprometer seus praticantes com certos exercícios de liberdade.

Talvez o mundo possa ser dividido em escala muito superficial o mundo em territorialistas e libertários. Esse é o segundo paradoxo.

Eu sou anti-territorialista com o software mas territorialista com todo o resto. Minha casa, meu templo.

fotos do Cairo:  http://www.facebook.com/album.php?aid=275387&id=598339469&l=6992209b77

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